sábado, 23 de maio de 2015

NOUS,NOUS,NOUS - verbete glossario etimologia

A barata (“Periplaneta americana”)
Passa próxima ao meu pé
Numa rapidez estonteante
Que a deixa tonta.
Essa  cena presenciei
Em vários momentos vitais
Ou nos quais estavam vivos
E em seu ser
Eu e a barata em périplo pelo planeta terra.

Quando uma e  outra consciência,
A minha  consciência daquilo
Que julgo ser consciência,
Une-se e liga-se à minha autoconsciência
Ou consciência da consciência minha
E da consciência do outro,
No caso da barata,
Que é  uma consciência
Da qual não estou cônscio,
Mas apenas imaginando
Ao lançar a minha consciência
No espaço e tempo
Que cobre ou cobra a relação
À maneira da cobra,
Que cobre o fio de cobre da comunicação à bateria ou pilha,
Espaço e tempo enquadrados
No visual geométrico que meço.

Com a percepção da barata
Passando para o alerta,
Posso então ver  a barata
Em seu esplendor de vida e corrida...
Ou em sua miséria e infortúnio?
O mesmo se dá
Com o fato tímido
que  torna a barata
Cônscia de mim  no entorno,
Vez que ela se volta
E  se depara com a minha  presença vital
Em meio ao seu meio de caminho,
Quase um cantinho
Para cantor de ópera bufa.
(Ufa! Bufa, bufão!).

Nossa relação pós-percepção mútua,
Senão tripla (quadrúpede? , centopéia..., artrópode...)
Com o meio  ambiente circundante
Perfaz dois comportamentos díspares
Que disparam imediatamente,  irracionalmente...
No melhor estilo disparado por um homem
Com fobia do bicho em tela.

A barata que aferiu a presença de meu ser
em seu campo de percepção
Foge esbaforida;
Eu, vendo-a em  desabalada fuga
Persigo-a com o afã
Que caracteriza e comanda a paixão
Da presa, que tende a se desprender
E  do predador em persecução tenaz.
Esses   dois movimentos de ser
Disparados ( disparatados)  entre mim e a barata tonta,
Depois de ocorrida a corrida,
Em que um se socorre
E outro só corre,
Acaba ao cabo de minutos
Ou em outro tempo
Que se arraste feito minhoca
Pelo chão do baixo ventre livre ou preso
Ao som e sono  de algum  saxofone
Que sacha a noite.
Esta a relação simples e chã
Comigo e a barata ao rás do chão,
Uma mera  corrida de barata
Faz-me crer que algo na  natureza
Está acordada e cônscia :
Que há um “nous” (nous)“in natura”
E Deus olha por aquela fresta
E, quiçá, por este ângulo me meça
Levando-me em seno a Pitágoras
Que me dá uma forma na geometria,
A qual me lava com uma fórmula
Iluminando parte do meu ser
Que vagava pelo lado escuro da lua
Sem rua nem batente
aonde uma porta me espera
Ansiosa por  ser batida
Pelos nós dos meus dedos
Em nua noite de lua
Em luta contra o luto.

Na língua culta, que foi o latim,
A qual  comunga  com as línguas
Que das línguas romances  se originou,
A barata tem a denominação  científica
Na nomenclatura binominal
 “Periplaneta  America”,
“Blattella   germânica”...,
Dentre outras similares
Que se referem às terras
Sobre as quais sobrevivem
E exprime um pouco
O que esse inseto faz
Em seu périplo.
Já eu estou em nomenclatura tríplice
Que diz o que sou
E o que mais sou...ou seja,
Sou algo em menor quantidade,
Mas em boa porção,
E outra coisa máxime  em quantidade; a saber :
“Homo sapiens sapiens”...
“Ecce homo”?!...
Não sei, não somo,
Máxime no que tange a lira ao homem,
Que “homo” sou no “húmus” da terra,
Ta qual a garricha cantante
E a urutu silente
Atrás da noite emboscada
Com uma baita peçonha
A ser inoculada á vítima de sua fome,
Que a chama à caçada
Junto ao demônio negro
Que corre ao relento da madrugada
Tangenciada pelo rio do rocio
Que está no cio.

Cambaxirra-cinzenta em Alta Floresta, Estado de Mato Grosso, Brasil



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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

FALENAS, FALENAS - glossario verbete etimo


Corpo hirto em um esquife :
esta uma definição de morte
( ou da morte?!).
Não um definir somente,
mas um definhar também
com rumo de demonstração 
através da ciência cênica do deus Thanatus
versus ciência cínica do homem do vulgo,
vulto transtornado em médico e monstro
na parede iluminada à vela.
Vela padrão.Cefeidas.
Vela no cais do porto
enfunada pelo ventre do vento
em veleiro velado.
Alaúde, Alaide, para a elegia
de Maria de Lourdes, minha mãe!
Alaúdes!
Um ataúde
não é uma alaúde.
O alaúde é um instrumento melódico
da família dos cordofones
e a música do alaúde
cabe na alma do mel;
por isso, a  melodia,
de-dia e noite-e-dia
toca à Via Sacra
que terminou para Maria de Lourdes Gribel,
porém continua para mim
no alaúde que pude 
por em arranjo de aliteração
ao modo Cruz e Souza de trinar, doutrinar.
Toca alaúde, Alaíde,
para Maria de Lourdes
viva em virtude,
agora em mansuetude...
de arroio que brinca de saltar pedras
nas perdas da madugada.
O ataúde que, no árabe grafado,
também aponta para a substância da madeira,
matéria em celulose,
é feito para guardar morto
desatado do contorno melódico,
mas ainda atada ao lúdico,
mesmo o mais módico
que chega  a beirar
o beiral do silêncio,
no qual pousa um cantochão
distante algumas jardas de mosteiros,
 abadias frias dadas em côvados covardes
e conventos, que há de convir,
são cenóbios,  casas cenobiais, monastérios,
lugares para vida contemplativa
daqueles monges com face de terra
e daquelas monjas que amam a Deus
sendo reciprocados 
pelo amor de Deus,
ó  amados e amadas,
que o são no sal da vida sã, santa, sanada...
- O alaúde tem abelhas
tecelãs terceiras da Ordem das avelãs e amêndoas
e  do mel que doa da lã melódica,
lânguidas, longas melíferas colmeias...
lançadas do cântico do alaúde
que eleva a alma da minha mãe
ao espírito que se esvazia
nos foles de Deus, do céu,
os  quais se expandem em plenos pulmões
com a música da sanfona ou acordeão
que acorda o acordo
na corda musical do pacto
que o senhor mandou sangrar
para poder assinar
com o sinal de sina do arco-íris
que conta ariris em neblina matinal
pelo grito nos céus
acima de telhado gris
que rebaixa os anis
ao nível dos homens vis.
Alaúde, Alaide, para prantear
o passamento de minha mãe,
 Maria de Lourdes,
senhora dos alaúdes,
- que eu a nomeio assim
com minha autoridade de homem livre.
Entrementes, se é a  vida da minha mãe
que me escapa pelas frinchas dos dedos
no tempo serpenteado pelas areias
divididas na ampulheta do homem
e soltas no Relógio de Areia do cosmos constelado,
tal qual um Adão com costela,
no período das águas,
com a clepsidra humana
separando águas de tempo,
- Nos instantes de luz,
que fazer e a quem instar?!
A que deus?!
A que lua, a que loa, 
- a que ladainha recorrer?
se o tempo em minha mãe
se transmutou em pedra
e de tempo involuiu para templo
tal qual o sangue do Mar Vermelho do corpo.
Posto o morto,
no caso, a morta,
a que porto
irá aproar, Eloá?
Em que momento soçobrará?!...
Posta a morta
a que porta
baterá?
À porta torta do batel
- que naufragou
e nem tinha porta
ou porto seguro
Aonde atracar?!...
Onde ir fugindo, à deriva...
O ataúde atou o corpo
de minha mãe
e o arrastou "redemoinhando"
para os subterrâneos
onde há Hades
e há-de haver catacumbas,
rio Estiges, barcas e Carontes.
O ataúde tocou-lhe a alma de alameda longa
que subiu aos céus
para encontrar um reino
todo dela,
todo mãe,
pronto e à espera
de sua soberana,
desde o rasto na areia
dos pés do primeiro tempo

em que ela pisou
na cabeça da serpente,
que é a vida :
mixórdia ou mescla de peçonha e remédio.

Mas se haverá céu e céus
nas acepções das palavras
para além dos azuis,
- o que não haverá
 senão todo o impossível?

No céu que creio
está o sol
plantado com se fora
um olho ciclópico,
o mar embaixo a remar

na preamar, baixa-mar...
e o luar encimando...- tudo,
porquanto  os deuses saem e entram em mim
assim como emergem as ervas da terra,
as víboras das tocas...
 
Deus deixa a caverna
que tenho dentro de mim;
sai silente com  o querubim e o serafim
da sua comitiva divina,
com seu séquito angélico,
tal qual saem corujas, mochos e morcegos
de seus valhacoutos.
A única fé que tenho,
trago-a em mim;
a única razão em que creio
e com a qual mensuro e conto
está dentro de mim :
o resto é xarope de groselha
para inglês beber.

Minha mãe faleceu;
no entanto,  metade do corpo dela
( corpo vem com água de alma e alga,
espírito de fogo)
foi deixado de legado vivo
em meu corpo,
pois a outra metade do meu organismo
pertence ao meu pai,
continuando, pois, o casamento deles
a viger dentro do meu corpo.
No que creio
é que minha mãe
que acaba de falecer
tem uma metade em mim
que a morte não pode levar
nem com seu exército bilionário de bactérias,
- pois metade do seu corpo
( e no corpo vai alma em água
e espírito em fogo)
ela me deixou de legado vivo :
- a metade do corpo que fora dado a ela
na herança genética.
Na outra metade do meu corpo
vive meu pai,
ambos casados
em corpo, alma e espírito
dentro de mim!

Do exposto, depreende-se que a metade
que foi pasto das bactérias comensais
pertencia a ela
- que teve que morrer pela metade,
pois a morte não se completa
senão depois de largo ciclo de vida
quando a outra metade morre
em todos os filhos e netos,
bisnetos,  tataranetos...
- e vai gerações! quase sem fim
a cavaleiro do fim. 

Ao ver minha mãe no "sarcófago",
contemplei pela terceira vez
a minha própria morte,
ainda de posse da consciência-corpo
que me faz recordar
da minha existência 
- até o dia do Senhor,
quando meu corpo for desconectado
do aparato vivo  da natureza
e minha memória corporal
fugir pela janela
Através de uma rede de falenas(falenas)
Que levarão minha memória consciente,
A qual multiplica o milagre
De abrir minha consciência
No encadeamento de atos e fatos
Que constituem o tempo:
O tempo do ser é o presente,
- o resto é tempo sem  ser.

Antes do passamento de minha mãe
assisti meu passamento em minha  avó 
e posteriormente em meu pai..:
Toca Alaíde,
Toca alaúde...
Ficheiro:The musicians by Caravaggio.jpg
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